Escribundo

Escritos e poesias vagabundas

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terça-feira, 29 de julho de 2014

Escribundo ... quase prosas - Título: Peixoto e Maria





A cortina sobe e lá estão. Posando. Sublimes. Do alto, refaziam o tempo em que foram alçados ao posto de quase-mitos.  Por isso, desde cedo mostravam satisfação por novamente estarem em um proscênio como protagonistas. A ovação voltou! Alguma coisa neles tentava nos convencer de que tantos aplausos eram costumeiros. Entrementes, sutilmente, também pairava ali um ar de espanto de quem, frente a tudo isso, trazia na verdade a surpresa e o prazer insuspeitos de serem novamente rei e rainha coroados por suas vozes. Algo lindo e constrangedor se nos apresentava naquele teatro.

Ele, vacilante, impreciso, parecia não estar ali. Já apareceu sentado, sem forças para desfilar de pé sua particularíssima elegância. Tanto brilhos espalhafatosos lhe vestia. Apoiava-se em letras para as dizer em melodias. Espasmodicamente falava algo, lembrava do que lhe fazia estar ali. Encantava-se com o lindo canto de seu par, o interrompendo ao sabor de seu gozo. Se uma palavra ou outra não apareceu para a canção, o canto não lhe faltou. Como há 50 anos. Sua voz permanecia, venceu o corpo, de certo que quase o abandonou. Como se se fizesse imortal e deixasse o recado para a carcaça de que não mais lhe fazia parte. A quase senilidade dava lugar a um canto vigoroso, que tomava conta da carne. Afinado, lidando com o tempo musical formidavelmente, encontrando lindos atalhos e transitando por eles em todas aquelas canções, samba-canções. Surtos de cantor que assombrou e fez verter agualinda dos olhos de quem lhe deu ouvidos. Eu? Chorei até ficar com dó de mim. Será que começará, será  que ele acabará aquela canção? Saberá a poesia?

Ela, anos mais velha, de pé. Seu corpo ainda não a abandonou. A voz, pena, quase se foi. Ao perceber isso, encontrei-me naqueles soluços que ela emitiu, por três vezes, sempre antes de cantar a palavra “chorar”. Mesmo sem o primor de outrora, ali estava ela. E bastava! Zelosa, cantava para a plateia. Pedia atenção e carinho. Fazia por transformar as gentes do teatro em novos súditos, exigindo mimos, provocando adulos. Conduzia o espetáculo e não titubeou uma vez sequer. Se nele a voz abandonou o corpo, nela o corpo manteve-se, mas sem voz. Entoou Babalu, quase sem poder. Vibratos imprecisos, insistentes, contraditoriamente pareciam desejar silêncio. Com carinho tomou as rédeas do espetáculo. Cuidou do parceiro. Estendeu-lhe o tapete, ajustou seu microfone e passou a lhe dizer quando a voz deveria deixar o corpo inerte e se pronunciar.

Melindres nos aplausos. A plateia, num cuidado quase paternal, esforçava-se para comemorá-los igualmente. Uma nesga de ciúmes talvez pudesse brotar no outro ao ver o teatro desequilibrar atenções. Nada não!!

Ai!

Como é bonito e triste o desaparecimento do artista. Do artista enorme, que teima em não se esvair ... nos constrangendo e nos encantando. Tirando de nós lágrimas e sorrisos simultâneos por sermos honradas testemunhas de seu esmaecimento. Digo de um esmaecer in natura, inexorável, suave e estendido e, por isso, belo. Algo nada precoce, vindo de quem nos deu e ainda dará até o estertor de sua própria voz a oportunidade de entendê-lo em arte. Triste pela própria condição de sumimento, de irreversível falta. Em tudo, deslumbrante.

De volta ao teatro. Lá estavam ainda os dois. E se consumiam mutuamente. Fãs de ontem, outros novos, também permaneciam. Uma groupie sexagenária invadiu lentamente, solenemente, o palco para lhes roubar um beijo. Um beija-mão. Alguém a se rasgar por eles!

De fato, frente a tudo isso,  não sei como cantaram assim!

As cortinas se arrearam. Duas vezes. Tudo acabado! E todo o cabaré os aplaudiu de pé quando chegou o fim!

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